Distrito de Mariana vira uma ‘Chernobyl não radioativa’ feita de lama

Bento Rodrigues se tornou um território hostil para o ser humano, em que plantas e animais conquistam um pouco mais a cada dia

O Globo

Um cardume de lambaris beliscava folhas junto a um muro de pedras histórico antes de desaparecer pela Rua São Bento, no caminho da Estrada Real. Mergulhou rumo a águas mais profundas, que cobrem escombros de casas soterradas e um campo de lama. Lambaris, carás e traíras estão entre os peixes que agora vivem nas ruas de Bento Rodrigues, alagadas por um dique de contenção de rejeito. Ali, no povoado fundado no século XVIII que se tornou símbolo do maior desastre ambiental da história do Brasil, a natureza leva ao limite a resiliência e a capacidade de sobreviver no caos.

Enquanto as vítimas sobreviventes da tragédia do rompimento da Barragem de Fundão, há quase dois anos, ainda aguardam as indenizações a que têm direito, Bento Rodrigues se tornou de fato uma Chernobyl não radioativa, feita de lama. Um território hostil para o ser humano, em que plantas e animais conquistam um pouco mais a cada dia.

Os peixes vieram por conta própria, através de pequenos córregos da Serra de Antônio Pereira. Nas ruínas de Bento que não estão submersas, plantas disputam espaço sobre qualquer pedaço de solo, até nas paredes ainda em pé no meio dos destroços.

Algumas delas vieram pela mão do homem, plantadas pela Samarco para conter o rejeito. Outras são ervas daninhas invasoras, cujas sementes chegam pelo vento, na roupa de eventuais visitantes, com os animais. Plantas medicinais e comestíveis, outrora cultivadas em Bento, conseguiram se desenvolver de sementes que sobreviveram à onda de lama.

Mas junto de onde ainda há floresta nas encostas, crescem algumas espécies nativas de Mata Atlântica, como embaúbas, candeias e goiabeiras, as mais preciosas de todas. Pois um dia, se tiverem sucesso, poderão devolver o lugar à Mata Atlântica, devastada na região desde o tempo dos Bandeirantes e do início da mineração, no fim do século XVII. É o que esperam biólogos como Maria Cristina Messias, do Departamento de Biodiversidade, Evolução e Meio Ambiente da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

“Bento se tornou um campo de testes da própria natureza. Mas não é um lugar para o homem. Tenho esperança que um dia, no meio de tanta tragédia causada pelo ser humano, aqui possa haver vida mais uma vez. Sou otimista com a força da natureza”, frisa a pesquisadora.

Na frente das paredes ainda em pé da escola municipal de Bento crescem numa moita erva-botão e barbasco, ambas medicinais. Dividem o espaço com uma mudinha de caruru-de-porco, comestível. Duas casas em ruínas adiante, Maria Cristina encontra um pé de marianinha e outros de roxinha e gervão, todos com poderes curativos.

De dia, Bento é das aves como maritacas, juritis, sabiás, canários-da-terra, carcarás e onipresentes urubus, que pousam na vegetação permanentemente empoeirada pela lama seca. À noite, chegam animais maiores. Lobos-guarás e veados-campeiros têm sido avistados pelos ex-moradores de Bento que nos fins de semana passam a noite nas ruínas das casas da parte alta do povoado.

A antiga Bento termina onde começa o dique S4, construído pela Samarco. O S4 impede que a lama acumulada em Bento e as águas com rejeito de mineração do Córrego Santarém alcancem o Gualaxo do Norte, por onde a onda do desastre seguiu até alcançar o Doce.

O preço foi o alagamento de parte das ruínas do subdistrito de Mariana, o que até hoje causa protestos dos antigos moradores que gostariam de ver tudo transformado num memorial.

Enquanto a situação legal das ruínas permanece em aberto, a natureza faz a sua parte. Nas redondezas e por todo o curso do Gualaxo e do Carmo, fiscais do Ibama constataram que em 86,1% das áreas afetadas, onde a mata ciliar foi arrancada, há recolonização por espécies vegetais nativas.

Segundo o mais recente relatório da Operação Áugias, que avalia a área impactada, é um sinal da influência da natureza. Ele recomenda que essas espécies sejam estudadas e priorizadas na recuperação. Mas o caminho é longo. O tempo da natureza não é o tempo dos homens.

“O desastre é rápido. A recuperação, lenta. Quando pensamos na recuperação da vegetação, de todos os cursos d’água, nascentes, pode levar 20 anos ou mais”, ressalta Kuriakin Toscan, da Coordenação de Recuperação do Ibama, que monitora a área mais atingida pelo desastre.

Fonte: O Globo

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