(IN)JUSTIFICATI­­VA

Sempre tive medo de perder papai. Mas esse medo aumentou depois que ele ficou doente.

Papai sempre fora um homem forte, saudável e cheio de vida. Seu hobby era correr pela praia, sentindo a brisa leve da manhã. Ele dizia que a mesma o acalmava e o dava uma sensação de completude. Papai se sentia inteiro só de ter o vento tocando seu rosto moreno.

Outra coisa que papai amava era tocar seu violão, enquanto mamãe o admirava em seu momento de plena felicidade e força. A música o fazia sorrir pras paredes e ter a liberdade de um passarinho deitado no ninho da vó. O fazia maior e mais corajoso.

Ninguém entendia, mas a música e o vento faziam papai sentir-se e ser o homem mais feliz e realizado do mundo. Isso nos contagiava. Eu, mamãe e meus irmãozinhos éramos igualmente felizes e realizados. Porque além da música e do vento, nós tínhamos papai.

Não sei nada sobre doenças, então não sei dizer qual o teve. Esse negócio é complicado, sabe?! Ficar doente… Pra que isso?! Mas o que levou papai não foi a doença, foi outra coisa que eu também não sei explicar. Vivo perguntando mamãe, pra quem sabe depois de tanto eu entenda…

Os médicos diziam que a doença de papai era grave, mas que ainda estava na fase inicial. Porém, como toda doença, era necessário tratamento e o mesmo custava todo o dinheiro do mundo pra nós. Nós não tínhamos o dinheiro que papai precisava. Nunca tivemos. Às vezes até ficavamos sem comer, mas isso não importava. Nós tínhamos uma união invejável, todo mundo achava que existia um segredo, uma receita. Nós até tentavamos ajudar, só que ninguém ouve conselho de pobre.

O tempo foi passando e a doença de papai todo dia se agravava um pouquinho, até chegar ao ponto de não o conhecermos mais. Papai não tinha mais aquela vitalidade e seu semblante era sempre triste. Quem um dia era sinal de muita alegria, tornara a nos fazer chorar. Dormíamos e acordavamos com cheiro de esperança, mas tínhamos muito, mas muito medo de perdê-lo. Por isso choravamos.

Um dia, vendo TV, no intuito apenas de distração, vimos uma propaganda sobre um programa do governo que beneficiava as pessoas e seus estados de saúde. Médico de graça. Isso era muita providência… Como não soubemos antes? Papai doente e médico atendendo de graça? Mas o que papai não pagou em dinheiro, pagou em espera, em desprezo… O que foi pior. Talvez se tivéssemos vendido todo o pouco que tínhamos nem fosse todo o dinheiro que precisávamos, mas talvez seria e papai não precisaria passar por tudo o que passou.

Eu queria que essa doença não existisse. Não por causa de papai, mas por causa das outras pessoas que também morrem diariamente por ter que esperar. Engraçado que mamãe sempre disse que “a espera custa caro, mas vale a pena”, vai ver nesse caso é excessão, né?! Enfim, eu queria por fim nessa doença, porque papai dizia que “ele não desejava pra ninguém o que acontecia com ele” e eu sei que isso, onde quer que ele esteja o deixa triste.

Mamãe também não sabe explicar sobre a doença. Na verdade, ela não gosta de falar. Não sei se pra nos poupar, ou simplesmente pra não relembrar e entristecer de novo. Mas sempre que eu pergunto, ela resmunga:
– Seu pai morreu de SUS.


10453209_667299976668765_1669095499_n[1]Jhully Inácio é escritora e acadêmica em Psicologia. Autora de Nós de Saudade, livro de prosa, publicado pela Editora Penalux em Junho de 2014.

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