Reciclagem incipiente faz Brasil perder R$ 120 bi por ano


Valor é fruto da má destinação dos resíduos sólidos no País; congresso internacional em Brasília discutirá o conceito de cidades lixo zero

“Sempre que vejo alguém reclamar da falta de recursos para construir um hospital ou uma escola, lembro que tanto um quanto o outro estão sendo jogados no lixo”. A frase de Rodrigo Sabatini, presidente do Instituto Lixo Zero Brasil, é referente ao fato de que o País perde, todos os anos, cerca de R$ 120 bilhões em razão da má destinação de resíduos sólidos que poderiam ser reciclados.

O terceiro maior gasto dos municípios brasileiros é com lixo. Segundo pesquisa da Ciclosoft, de 2016, articulada pela organização Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), realizada com 1.055 municípios brasileiros, a coleta seletiva está presente em apenas 18% das cidades. Sabatini relata que o Brasil produz 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, o que seria suficiente para encher 200 campos de futebol.

Sabatini criou um simulador que mostra aos gestores públicos os gastos de seus municípios com os resíduos sólidos e como sairiam ganhando caso adotassem o conceito Lixo Zero, cuja definição consiste em uma meta ética, econômica, eficiente e visionária para guiar as pessoas a mudarem seus modos de vida e práticas de forma a incentivar os ciclos naturais sustentáveis, no qual todos os materiais são projetados para permitir sua recuperação e uso pós-consumo.

Prefeitura de Salvador implantou, em 2015 os Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) para reciclar lixo da cidade (Foto: Bruno Conhca / Agecom SSA)

O simulador será apresentado durante a primeira edição do Congresso Internacional Cidades Lixo Zero (Zero Waste Cities), que será realizada no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, de 5 a 7 de junho. O evento é gratuito e reunirá especialistas do Brasil e do exterior que apresentarão práticas e tecnologias em gerenciamento de resíduos sólidos.

Exemplos

Representantes de cidades de todos os continentes e especialistas ligados à sustentabilidade e ao meio ambiente estarão na capital federal para apresentar seus casos de sucesso. Entre eles Akira Sakano, presidente do Conselho de Administração da Academia Zero Waste no Japão, selecionada como Global Shapers (formadores globais) do Fórum Econômico Mundial.

A academia é uma organização sem fins lucrativos criada em 2005 e baseada na cidade de Kamikatsu, a primeira comunidade local declarada para a ambição da Zero Waste no Japão, famosa por suas 45 categorias de coleta seletiva e que já alcançou quase 80% de reciclagem de resíduos.

Inspiração

O contato com experiências como a japonesa prometem inspirar os gestores públicos e a sociedade brasileira como um todo. Outros que estarão em Brasília são Richard Anthony, presidente e fundador da Aliança Internacional Lixo Zero, dos Estados Unidos; Charles Moore, capitão do navio de pesquisa Alguita, que descreveu as ilhas de lixo no Oceano Pacífico; e Leslie Lucaks, responsável pelo programa Lixo Zero em grandes estádios nos Estados Unidos, como o Rose Bowl, onde a Seleção Brasileira sagrou-se tetracampeã mundial em 1994.

Dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos (Abrelpe) apontam que a média nacional da taxa de reciclagem no País é inferior a 3%, e que 64% dos municípios ainda possuem lixões, embora a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) tenha determinado a extinção desse tipo de equipamento, que deve ser substituído por aterros.

Salvador

Uma das alternativas para aumentar a taxa de coleta seletiva em Salvador são os Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), instalados a partir de 2015 pela Prefeitura. A iniciativa conta, atualmente, com 93 equipamentos em 50 bairros da cidade (31%), o que significa que 113 (69%) ainda carecem desses ‘ecopontos’.

De acordo com informações da Secretaria de Cidade Sustentável (Secis), a logística referente aos PEVs envolve um custo de R$ 150 mil por mês e inclui manutenção de caminhões, motoristas e equipe de apoio. A separação dos resíduos sólidos abastece oito cooperativas de reciclagem. Por meio da venda desses materiais, 256 famílias que trabalham nesses locais são beneficiadas.

A Secis criou, no ano passado, o aplicativo para smartphone Coleta Seletiva Salvador, que mapeia os pontos da capital onde a população pode descartar os resíduos, e informou que pensa em expandir a estratégia referente aos PEVs. Atualmente, a secretaria realiza uma análise dos bairros onde ela já foi implantada, mas não vingou.

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