Existe um fenômeno silencioso que corrói prefeituras Brasil afora. Não começa com um escândalo. Começa com uma mudança de postura. Um prefeito que foi eleito para servir passa a agir como se tivesse sido eleito para reinar.

Chama-se Síndrome do Segundo Mandato.

O roteiro é quase sempre o mesmo: no primeiro mandato, o gestor trabalha, entrega obras, aparece nas comunidades, responde questionamentos. A população reconhece. Reelege. E é aí que começa o problema. A vitória nas urnas, para certos perfis, não é lida como uma renovação de contrato — é lida como uma carta branca. Uma aposentadoria antecipada do senso de responsabilidade.

O político que antes pedia voto agora distribui favores. O que antes prestava contas, agora cobra silêncio. O que antes temia a fiscalização, agora a persegue.

São Paulo já viu esse filme.

Paulo Maluf foi duas vezes prefeito de São Paulo. No primeiro ciclo, governou com alguma entrega concreta — o "Maluf faz" que a direita paulistana ainda evoca como argumento. Mas o que ficou para a história não foram as obras. Foram os desvios, os contratos superfaturados, os processos na Interpol, a prisão decretada por ordem do STJ. Maluf virou sinônimo de um modelo de gestão que o Brasil popular batizou com ironia amarga: "rouba, mas faz."

Essa frase, que muitos repetem como se fosse tolerável, é na verdade a maior confissão de derrotismo da política brasileira. Ela diz: aceitamos ser roubados, desde que nos joguem um osso. É a negação da cidadania. É a morte da exigência pública.

Nós não queremos um Maluf em Teixeira de Freitas.

E o risco não é hipotético. É atual.

O que se vê hoje na gestão Marcelo Belitardo não é mais a diligência do primeiro mandato. É o arrogância do segundo. Um procurador-geral que edita portarias para suspender presidentes eleitos do Conselho Tutelar, órgão constitucionalmente autônomo — como se a lei fosse um detalhe para quem tem o carimbo certo. Secretários que obtêm vagas em creche pública fora dos critérios estabelecidos pela própria prefeitura. Contratos de publicidade que colocam o rosto do prefeito em revistas pagas com dinheiro público.

E quando alguém levanta a voz? A resposta é coordenada e imediata: notas difamatórias publicadas por veículos cujo financiamento vale investigar, amplificadas pelos próprios assessores do executivo municipal. Exonerações de servidores ligados a vereadores que ousaram instalar comissões de investigação. Tudo no mesmo dia. Tudo com o mesmo objetivo: calar.

Isso não é gestão. É intimidação.

O prefeito que serve à população não tem medo de CPI. O prefeito que serve a si mesmo — e à sua rede de proteção — trata a Câmara Municipal como inimigo a ser neutralizado, e não como a instituição de controle que ela constitucionalmente é.

Teixeira de Freitas merece mais. Merece um executivo que preste contas sem precisar ser forçado. Que respeite a autonomia das instituições sem precisar ser lembrado pela lei. Que entenda que o segundo mandato é uma confiança renovada — não uma imunidade conquistada.

Quem confunde popularidade com impunidade está no caminho de Maluf.

E nós estamos aqui para lembrar que esse caminho tem um destino conhecido.


André Dias Aguiar é secretário executivo, com experiência em assessoria legislativa, administração e comunicação institucional. Atuou na Câmara Municipal de Teixeira de Freitas, desenvolvendo atividades de apoio administrativo, organização de demandas, atendimento e suporte às rotinas parlamentares. Cursando Gestão Financeira, escreve sobre política nacional e regional, gestão pública, comunicação, organização profissional e temas de interesse social, com uma linha editorial clara, objetiva, responsável e informativa.