Quando Marcelo Angênica subiu ao palanque para pedir voto a Jorge Almeida nas eleições de 2024, ninguém em Itamaraju duvidava do desfecho. O médico que governou a cidade por dois mandatos consecutivos (2017–2024) transferia ao aliado não apenas seu capital eleitoral, mas uma máquina política construída ao longo de oito anos. A vitória veio. O que ninguém previa é que, poucos meses depois da posse, o padrinho seria tratado como estranho dentro do governo que ajudou a criar.
Os primeiros sinais
O distanciamento começou discreto. Ainda no primeiro semestre de 2025, servidores comissionados ligados à gestão anterior passaram a ser exonerados em série. Nos corredores da prefeitura, a expressão que circulava era direta: "caça às bruxas". Nomes históricos do grupo de Angênica perderam seus cargos sem aviso prévio, numa onda de substituições que atingiu diversas secretarias.
Em julho de 2025, o primeiro sinal público veio à tona. Reportagens deram conta de que Jorge Almeida estaria sendo sondado pelo governo do estado para uma possível adesão à base do governador Jerônimo Rodrigues (PT) — um movimento que, se confirmado, representaria uma guinada de 180 graus em relação ao grupo de ACM Neto, ao qual Angênica é historicamente vinculado. A estratégia do Palácio de Ondina seria a mesma já aplicada em Teixeira de Freitas com o prefeito Marcelo Belitardo: cooptar gestores do extremo sul para enfraquecer a oposição na região.
Em agosto, o próprio Jorge Almeida reconheceu o distanciamento em suas redes sociais. Disse considerar "natural que, depois da eleição, cada um assuma papéis diferentes". Garantiu que as portas seguiam abertas para Angênica e para o vice-prefeito Gilson Guimarães, conhecido como Lê da LR. Mas o tom conciliador contrastava com a realidade: nem Angênica nem Lê estavam sendo consultados sobre decisões da administração.
O rompimento ganha contornos públicos
Em outubro de 2025, o cenário escalou. O vice-prefeito Lê da LR oficializou, em ato político com a presença de vereadores e lideranças locais, seu apoio aos deputados Sandro Régis (União Brasil) e Leandro de Jesus (PL) — candidatos que não faziam parte da agenda do prefeito. No mesmo evento, Marcelo Angênica marcou presença, sinalizando que o reagrupamento político já estava em curso.
Lê da LR emitiu nota negando rompimento formal com Jorge Almeida, mas deixou claro que seu grupo atuaria com "independência" na escolha de candidatos a deputado. Na prática, a mensagem estava dada: a base que elegeu Jorge já não era mais uma base — era um arquipélago de interesses divergentes.
Em novembro, o deputado estadual Robinho (União Brasil) foi ainda mais direto. Em entrevista à Rádio Tropical FM, classificou Jorge Almeida como "vaidoso" e "divisor do próprio grupo político". Segundo o parlamentar, Angênica havia sido colocado para escanteio e "completamente isolado do governo", apesar de ter sido o grande responsável pela vitória eleitoral. O apelo de Robinho foi público: "Prefeito, o senhor já foi eleito, deixa a vaidade de lado e vamos unir forças."
O apelo não surtiu efeito.
A demissão que virou símbolo
Em fevereiro de 2026, o episódio mais emblemático da ruptura veio à tona. Marcelo Angênica — médico cirurgião de formação — havia retornado ao Hospital Municipal de Itamaraju para atuar voluntariamente como cirurgião. Trabalhou cerca de 60 dias sem receber remuneração, aguardando a formalização de um contrato que nunca chegou. Quando o diretor clínico Christiano Barreto pediu exoneração, Angênica foi sumariamente dispensado.
Mais do que demitido: foi impedido de frequentar a unidade de saúde. Servidores apontaram que a ordem partiu diretamente do gabinete do prefeito. O episódio gerou forte repercussão entre funcionários e pacientes, que lembravam que o ex-prefeito havia governado a cidade por oito anos e agora era tratado como persona non grata no hospital público.
O xeque-mate no Legislativo
Se a demissão do hospital foi simbólica, o golpe decisivo foi institucional. Em 26 de fevereiro de 2026, a Câmara Municipal de Itamaraju realizou a eleição da Mesa Diretora para o biênio 2027/2028. Jorge Almeida apostou todas as fichas na reeleição do presidente Chico Jiló (União Brasil), seu aliado direto.
Uma hora antes da votação, o prefeito reuniu dez dos quinze vereadores da Casa para reforçar a chapa governista. Registrou fotos com o grupo e comemorou antecipadamente o que considerava uma vitória certa por 10 a 5.
A urna contou outra história. A vereadora Roseneide Cunha, conhecida como Rose da Saúde (PSDB), venceu por 8 votos a 7. Três dos dez vereadores que haviam posado ao lado do prefeito minutos antes votaram contra sua orientação — um desembarque coordenado que fontes políticas locais atribuem diretamente à articulação de Marcelo Angênica nos bastidores.
A derrota expôs a fragilidade de um prefeito que, com pouco mais de um ano de mandato, já não controlava o Legislativo. Para Angênica, a mensagem foi clara: mesmo fora do governo, ele mantém capital político suficiente para eleger aliados e determinar o rumo da Câmara — inclusive no que diz respeito à aprovação de suas próprias contas públicas, que ainda dependem de análise parlamentar.
O que está em jogo
O rompimento entre Jorge Almeida e Marcelo Angênica não é apenas uma disputa de egos entre dois políticos do PSDB. É uma reconfiguração que afeta diretamente o tabuleiro eleitoral de 2026 no extremo sul da Bahia.
Angênica, agora mais próximo dos deputados Sandro Régis e Robinho, reorganiza seu grupo com independência e demonstra que pretende ser protagonista — e não coadjuvante — nas eleições estaduais. A possibilidade de que ele não apoie candidaturas alinhadas a Jorge Almeida, como as de Adolfo Viana e Tiago Correia, segue no radar, embora sem confirmação oficial.
Para Jorge Almeida, o cenário é desafiador. Sem o controle da Câmara, sem base parlamentar sólida e com a confiança de seus aliados abalada pela votação de fevereiro, o prefeito enfrenta dificuldades crescentes para aprovar projetos e manter a governabilidade. A pergunta que ecoa nos corredores políticos de Itamaraju é inevitável: se Jorge não conseguiu segurar uma eleição interna da Câmara dependendo de apenas oito votos, como pretende entregar votos a seus deputados em outubro — e, em 2028, disputar a reeleição contra seu próprio padrinho político?
A história recente do extremo sul baiano mostra que prefeitos que isolam aliados e concentram poder tendem a pagar o preço mais cedo do que imaginam. Em Teixeira de Freitas, dinâmica semelhante se desenha com o prefeito Marcelo Belitardo, que também perdeu a eleição da Mesa Diretora da Câmara para a oposição. Em Itamaraju, a lição já foi dada — resta saber se será aprendida.






