"A única vereadora que vai ao abrigo na chuva agora precisa explicar por quê foi"

Teixeira de Freitas, 28 de março de 2026 — A vereadora Simara Rodrigues Soares (Projeto Resgate) veio a público nesta semana responder à denúncia que circulou nas redes sociais sobre o uso de veículo oficial da Câmara Municipal para o transporte de material de madeira. Em nota de esclarecimento, a parlamentar comentou sobre a estruturação de alas do abrigo de animais danificadas pelas chuvas e apontou o que considera o real problema por trás de tudo: a ausência total de política pública municipal para os animais em situação de rua de Teixeira de Freitas.

A lei que a Prefeitura ignora

A nota assinada pela vereadora cita a Lei Federal nº 13.426/2017, que atribui expressamente ao município a responsabilidade pelo controle humanitário de animais em situação de rua, e o artigo 225 da Constituição Federal, que impõe ao Poder Público o dever de proteger a fauna. Segundo Simara, nenhuma dessas obrigações é cumprida pela administração municipal: não há abrigo público, não há política de castração e não existe dotação orçamentária destinada à causa animal no município.

Nesse vácuo, o Projeto Resgate — iniciativa coordenada pela vereadora com recursos próprios e doações da comunidade — passou a exercer, na prática, o papel que caberia ao Executivo. "Não houve, em nenhum momento, benefício pessoal, enriquecimento ilícito ou desvio de bem público para finalidade privada", afirma a nota.

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Três dias antes do ataque: a tribuna que incomodou

O que a cobertura midiática do episódio omitiu é um dado que muda completamente a leitura do caso. Na última terça-feira, 24 de março de 2026 — apenas três dias antes de a matéria ser publicada —, a vereadora Simara ocupou a tribuna da Câmara Municipal para denunciar uma suposta irregularidade grave na Secretaria Municipal de Educação: a alegação de que Patrícia Campista dos Santos Pessoa, então titular da pasta, teria beneficiado sido beneficiada com acesso preferencial a vaga em creches públicas, em aparente desrespeito à ordem de espera da fila de seleção municipal — enquanto exercia o cargo e recebia remuneração estimada em cerca de R$ 10 mil mensais.

A denúncia, feita em plenário e com respaldo no mandato parlamentar da vereadora, não recebeu qualquer cobertura pelo mesmo veículo que, setenta e duas horas depois, dedicou atenção destacada a uma carrocinha com madeira.

Denúncia com endereço

O que chamou a atenção de observadores políticos não foi apenas o conteúdo da denúncia, mas o momento em que ela veio à tona. Em 17 de março de 2026 — apenas nove dias antes da publicação da matéria —, foram instaladas três Comissões Parlamentares de Inquérito na Câmara Municipal de Teixeira de Freitas, subscritas por oito vereadores, para apurar irregularidades na gestão do município. Simara é uma das signatárias.

Nos dias seguintes, servidores ligados a alguns parlamentares foram exonerados, com os atos publicados no Diário Oficial na mesma data da instalação das CPIs. Denúncias contra vereadores signatários começaram a circular em veículos de comunicação identificados como alinhados ao Executivo Municipal.

A nota da vereadora é direta ao registrar o padrão: "A presente denúncia, formulada apenas nove dias após a instalação das CPIs e 72 horas após minha denúncia na tribuna, e publicada pelo mesmo ecossistema midiático que tem amplificado as ações de retaliação, revela, no mínimo, o grave risco de instrumentalização de mecanismos de controle com fins persecutórios."

Quem é Patrícia Campista — e por que o nome importa

A Secretária de Educação Patrícia Campista dos Santos Pessoa não é uma figura periférica na estrutura de poder do Executivo Municipal. Segundo fontes que preferiram não ser identificadas, ela mantém relação de proximidade intensa tanto com o Prefeito quanto com a Primeira-Dama, o que lhe conferiria, na prática, proteção política de primeira linha dentro da gestão.

Seu nome também está associado a relatos de expressiva rotatividade de pessoal no setor de compras da administração municipal durante o período em que exerceu função nessa área — servidores que, segundo as mesmas fontes, deixaram seus cargos após resistir a condutas que consideravam incompatíveis com os procedimentos regulares de aquisição. O padrão de saídas teria levantado questionamentos internos sobre a regularidade de processos licitatórios conduzidos naquele período, embora não haja, até o momento desta publicação, apuração formal concluída sobre o tema.

Na Secretaria de Educação, onde agora ocupa o cargo máximo, relatos anônimos de servidores descrevem um ambiente marcado por centralização excessiva de decisões e baixa tolerância a questionamentos — um estilo de gestão que, segundo essas fontes, vem gerando tensão no quadro funcional da pasta.

O fato é que a denúncia feita por Simara na tribuna no dia 24 tocou diretamente nesse núcleo de poder. A matéria publicada no dia 27 pelo mesmo veículo que retaliou as CPIs aparece, nesse contexto, com uma lógica difícil de ignorar.

A resposta que virou agenda

Em vez de recuar, Simara anunciou na nota que continuará lutando pela criação do Serviço Municipal de Proteção e Acolhimento de Animais em Situação de Rua, com estrutura física, veículo oficial, equipe técnica e orçamento próprio — proposta defendida por ela na Câmara e que, segundo a vereadora, visa garantir que "nenhuma outra pessoa precise desesperadamente fazer por amor o que a gestão deveria fazer por obrigação."

A parlamentar também convidou publicamente quem formulou a denúncia — e quem a aplaudiu — a visitar as instalações do Projeto Resgate e conhecer de perto o trabalho realizado com os animais resgatados das ruas da cidade.

A repercussão nas redes sociais, desde a publicação da matéria original, foi amplamente favorável à vereadora. Moradores relataram ter visto outros veículos oficiais em situações diversas sem que qualquer denúncia fosse formulada, e defensores da causa animal destacaram que o Projeto Resgate é, hoje, a única iniciativa organizada de proteção animal em Teixeira de Freitas.