Há um ano e meio, quem se atrevesse a sugerir que o prefeito Marcelo Belitardo — reeleito pelo União Brasil em 2024 com a bênção expressa de ACM Neto — estaria hoje num palanque do governador Jerônimo Rodrigues seria recebido com incredulidade. E quem ousasse dizer que Jonatas Santos, o vereador de primeiro mandato eleito com apenas 16 dias de campanha, assumiria o comando do União Brasil na cidade e se sentaria à mesa com ACM Neto e Bruno Reis como líder regional, seria chamado de delirante.

Mas a política, como diz o ditado, é como nuvem: muda de forma sem prenúncios.

A peça que ninguém viu se mover

A filiação de Penélope Belitardo ao PRD não é apenas uma troca de sigla. É o selo definitivo de uma migração que o clã Belitardo vinha executando nos bastidores desde o início do segundo mandato.

Penélope, que acumula os papéis de primeira-dama, ex-secretária de Cultura e Turismo e pré-candidata a deputada estadual, sempre foi apresentada ao eleitor como uma extensão do projeto político de Marcelo. Sua pré-candidatura à Assembleia Legislativa, anunciada pelo próprio marido em entrevista à Rádio Eldorado em maio de 2025, já trazia o DNA da ambiguidade: na época, Penélope era filiada ao União Brasil — o partido de ACM Neto. Agora, senta-se no PRD, uma legenda capturada pelo grupo governista.

O PRD — fruto da fusão entre o antigo Patriota e o PTB — tornou-se, nos últimos meses, um dos campos de disputa mais intrigantes da política partidária baiana. Deputados como Marcinho Oliveira, que migraram do União Brasil, já declararam publicamente que seus mandatos estão alinhados ao governador Jerônimo. A federação PRD-Solidariedade colabora abertamente com a base petista. A filiação de Penélope a essa sigla não é coincidência — é cartografia: marca com precisão cirúrgica a posição do prefeito Belitardo no novo mapa de forças.

Para quem acompanha o jogo de perto, a mensagem é cristalina: a família Belitardo deixou o barco de ACM Neto e embarcou na caravela de Jerônimo. A pré-candidatura de Penélope à Assembleia agora carrega uma etiqueta diferente — não mais a oposição ao governo Jerônimo, mas sua base.

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O herdeiro que esperou na sala ao lado

Se a migração dos Belitardo é a peça mais ruidosa do tabuleiro, a ascensão de Jonatas Santos é, talvez, a mais previsível.

Jonatas sempre gravitou na órbita de ACM Neto. Sua trajetória política foi moldada ao lado da deputada estadual Kátia Oliveira, uma das mais tradicionais representantes do União Brasil no Extremo Sul. Mas havia um problema estrutural: enquanto Marcelo Belitardo era o líder local do partido, Jonatas não tinha passagem para ocupar algum espaço ali. O caminho estava bloqueado por hierarquia territorial.

A decisão de Belitardo de migrar para a base de Jerônimo mudou tudo. ACM Neto, em reação direta, retirou o controle do União Brasil em Teixeira das mãos do prefeito e o transferiu para Jonatas. Com o pacote vieram também o DC e o PRB — siglas menores, porém estratégicas na composição das chapas proporcionais da região.

De vereador de primeiro mandato a presidente reeleito da Câmara Municipal — e agora a comandante do União Brasil, do DC e do PRB no Extremo Sul —, Jonatas não apenas herdou o trono: assumiu o papel de general de campanha de ACM Neto em uma das regiões mais populosas do interior baiano.

O anúncio da pré-candidatura a deputado federal pelo União Brasil, feito ao lado de ACM Neto e do prefeito de Salvador Bruno Reis, não é apenas pessoal. É institucional. Jonatas não se candidata só por si — se apresenta como a face regional de um projeto estadual.

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O paradoxo de quem fica e quem vai

O que torna essa reconfiguração tão fascinante é o paradoxo que ela carrega.

Marcelo Belitardo construiu sua carreira política como homem de ACM Neto. Foi eleito e reeleito pelo União Brasil. Articulou apoios, distribuiu cargos, montou uma base legislativa dentro da Câmara Municipal que chegou a ter mais de dez vereadores. Era, por definição e por função, o representante de ACM Neto no Extremo Sul.

Agora, é Jonatas — o parlamentar que se elegeu faltando 16 dias para o pleito, que derrotou o candidato do prefeito na disputa pela presidência da Câmara com 13 votos contra 6, que foi reeleito presidente em fevereiro de 2026 com 14 votos em chapa única enquanto quatro vereadores da base do prefeito sequer compareceram à sessão — quem carrega a bandeira que Belitardo abandonou.

A base legislativa que Belitardo construiu na Câmara está hoje enfraquecida. A reeleição de Jonatas, a instalação de três CPIs que miram diretamente a gestão municipal — limpeza pública, saúde e abuso de autoridade da PGM — e o isolamento progressivo do Executivo no Plenário sugerem que a troca de lado do prefeito não veio acompanhada da manutenção do controle legislativo. Belitardo trocou de trincheira, mas perdeu soldados no caminho.

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As peças que ainda estão em movimento

O xadrez não acabou. Se o tabuleiro local já surpreende, o estadual adiciona camadas de complexidade.

No campo de Jerônimo, a chegada dos Belitardo ao PRD se insere em uma operação mais ampla de absorção de prefeitos reeleitos do União Brasil. A articulação, conduzida pelo secretário de Relações Institucionais Adolpho Loyola e pelo deputado federal Gabriel Nunes, já trouxe nomes de peso para a base governista em diversos municípios. Teixeira de Freitas, com seus mais de 170 mil habitantes e posição estratégica como polo do Extremo Sul, era uma peça cobiçada.

No campo de ACM Neto, a ascensão de Jonatas resolve um problema e cria uma oportunidade. O problema: a perda de um prefeito reeleito. A oportunidade: a construção de uma liderança jovem, com lastro legislativo e capacidade de articulação comprovada, que pode se transformar em plataforma de votos para a Câmara Federal e, ao mesmo tempo, em antena regional para a campanha ao Governo do Estado.

As apostas já estão na mesa. Segundo a imprensa especializada, Jonatas e o Coronel França dividem a preferência de ACM Neto para a liderança na cidade — ou, no caso de Jonatas — pelo Extremo Sul.

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Epílogo provisório

Teixeira de Freitas sempre foi uma cidade onde a política se faz no corpo a corpo, no olho no olho, na esquina e no balcão do comércio. Mas o que aconteceu nos últimos dezoito meses transcende o município. É um microcosmo da reconfiguração que atravessa a Bahia inteira às vésperas das eleições 2026: prefeitos migrando, partidos sendo reocupados, lealdades sendo redesenhadas, e alianças que pareciam eternas sendo dissolvidas por conveniência, cálculo ou pura sobrevivência.

No fim, sobra uma verdade que todos os personagens desta história conhecem: na política do Extremo Sul, quem sentou na cadeira errada no momento errado pode passar anos assistindo de fora. E quem soube esperar, pode acordar um dia no centro do tabuleiro — sem ter precisado mover uma única peça.

As nuvens, afinal, não pedem licença para mudar de forma. Basta o vento soprar na direção certa.

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